quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Filicídio: avesso do parricídio

Vera Pollo
participação no debate no Espaço SESC após a peça

Gostaria de agradecer o convite de Quinet de participar do debate e manifestar minha satisfação de estar neste debate com Teresa nazar e Glória Sadala. Vou tentar me ater brevemente às contribuições de Freud e Lacan sobre a tragédia.
O complexo de Édipo sem o trágico
Qual a diferença entre o trágico grego e o nosso trágico? Podemos encontrar uma resposta no Seminário 17 de Lacan, no qual ele faz uma releitura do Édipo freudiano. Ele diz aproximadamente o seguinte: uma coisa é o mito do Sófocles e outra é o Édipo freudiano, porque o Édipo freudiano é o mito de Sófocles sem o trágico. E há, ainda, um terceiro ponto que é, nesse momento, a re-interpretação que é feita pelo texto de Quinet. Nosso mito do Édipo é o “complexo de Édipo”, como Freud o chamou, e que ele já é o mito sem o elemento trágico grego, que seria o resultado da predominância dos valores coletivos sobre o desejo individual. Aqui, não se trata de passar do desejo ao ato, porque o nosso complexo de Édipo são as nossas fantasias incestuosas, nossos impulsos incestuosos, nossas tentações- eles não são o ato trágico, que leva necessariamente à morte.
Édipo no Xingu
Nesta versão tribal do Édipo da peça do Quinet, é impressionante como as máscaras do Xingu se adaptaram perfeitamente aos personagens gregos. Durante a apresentação, eu cheguei a comentar isso com a Ana Carolina Lobianco: o quanto um feiticeiro do Xingu pode passar por um feiticeiro da Grécia. É impressionante! A Esfinge também...

Além disso, dois elementos chamaram muito a minha atenção.
O estrangeiro
O primeiro é a questão do estrangeiro. Qual é o lugar do estrangeiro? Será que o trágico não está para nós justamente na descoberta de que o estrangeiro é também o mais íntimo? Édipo é um estrangeiro, ele mesmo se afirma nestes termos, porque ele saiu do ventre de uma tebana, mas não pode ser reconhecido como tal. Onde quer que ele esteja, será sempre um estrangeiro. Esse é um tema trágico presente na experiência psicanalítica e que, hoje, foi posto em cena.
O filicídio: avesso do parricídio
Um segundo elemento é o crime do filicídio como o avesso do parricídio. Parece-me um tema de uma contemporaneidade muito grande.
Podemos ver como a estrutura é, de fato, transcultural e atemporal. A bem da verdade, para nós, o tema do filicídio é um acréscimo de Lacan à teoria freudiana. Como se Lacan estivesse dizendo a Freud:
“Mas... escuta, você criou o mito do parricídio, você criou Totem e tabu, não é pouco não, porém vamos ao Antigo Testamento. Será que o filicídio não é o avesso do parricídio? Será que sua intenção é apagar o filicídio com o parricídio? Será que o parricídio apaga o filicídio?”
Isso, a meu ver, é de uma contemporaneidade atroz. Por exemplo, nos últimos dias, está voltando na nossa mídia, o assassinato da Isabela Nardoni, que foi morta pelo pai e pela madrasta. Não sei se seria uma boa tragédia para Aristóteles, mas há coisas que não vamos saber nunca.
A virada
Lembro-me de ter lido nele que uma boa tragédia depende, entre outras coisas, de um número certo de metáforas. E depende também de uma virada, uma reviravolta no enredo, da felicidade à infelicidade, independentemente do caráter do herói. É preciso que tudo mude muito, e de repente. Eis o característico da tragédia para Aristóteles.

terça-feira, 12 de maio de 2009

O avesso de Eros

Marco Antonio Coutinho Jorge
debate no Espaço SESC
29/3/2009

Agradeço muito ao Quinet pelo convite para conversar um pouco sobre a peça. É um prazer estar aqui com Gloria e também com vocês. Infelizmente, não pude ver a peça antes, porque isso teria sido certamente necessário para a gente poder explorar mais uma porção de elementos que a peça apresenta. Ela tem uma densidade, uma riqueza de elementos que, certamente, dão vontade de ver de novo.

Com Lacan pelo avesso
Antes de tudo, o fato de Quinet, um psicanalista lacaniano, ter reescrito ou transcriado o Édipo, é extremamente relevante. Só um psicanalista lacaniano poderia ter uma visão do Édipo em que a ênfase fosse colocada em alguns aspectos. A primeira coisa que me ocorreu, foi que deve ter sido muito difícil escrever isso, deve ter sido de virar pelo avesso. Para se escrever, como diz o nome da peça, Édipo pelo avesso, é preciso virar pelo avesso. Para um psicanalista fazer um trabalho desses, é preciso tomar contato com uma intimidade de questões suas, pessoais, dos seus pacientes, da sua experiência de vida e da própria psicanálise. Eis o que confere a força e a verdade que se vê na peça.

A abertura com Laios
Algumas coisas para mim chamam atenção. Em primeiro lugar, o fato de que Quinet deu palavra no texto para personagens que, na peça do Sófocles, nas diferentes versões, elas não aparecem com palavras, mas são apenas indicadas. A abertura com o texto de Laios, achei magnífica, porque é exatamente um texto que a gente pode supor. Eu acho que Quinet quis trazer a idéia de que é um texto que está subjacente à peça, ele move a peça. Um texto que, exatamente porque está de alguma forma recalcado, esquecido ou até obliterado, por todos os modos, quando ele é explicitado, faz com que a gente veja que há outros elementos na peça que não se via até então. A história do Laios, a história que ele infringiu a Lei da Hospitalidade é muito mais relevante do que o fato da homossexualidade do Laios, que muitas vezes é colocada no primeiro plano. Na verdade, não é a homossexualidade de Laios que é a responsável por toda declinação trágica do que virá com a sua descendência, mas sim o fato de que ele infringiu uma lei. A lei da hospitalidade era uma lei extremamente poderosa naquela época. Qual é o efeito disso? Ele se apaixona por Crisipo, e o faz o rapto. A maldição que o pai de Crisipo profere é que será responsável por toda a transmissão transgeracional da desgraça no texto que você mostrou... Achei muito bonito esse texto que foi divulgado para o debate. Não sei se todos vocês puderam ler. Isso vai ser responsável porque alguma coisa ali se produziu como sendo o próprio significante da filiação. “Você seqüestrou e raptou meu filho, aquele que eu amo, então, você receberá do seu filho, o ódio.” É uma espécie de reversão absolutamente forte do que acontece na história do Édipo. É, se assim podemos dizer, a “história patológica pregressa”.

A voz de Jocasta
Outro momento que acho importante foi aquele em que você dá voz a uma personagem cuja voz não está tão explícita no texto do Sófocles: é a Jocasta. Ela aparece dizendo coisas e até mesmo fazendo coisas em cena que mostram sua posição. Isso foi indagado por vários comentadores e estudiosos da tragédia, e Lacan chamou atenção para o quanto Jocasta sabia. Parece que desde o começo... Inclusive eu reparei muito na atriz que a fez, ( Lilian Chalub que se encontra na platéia do debate). O quanto ela, desde as primeiras falas, pelo seu olhar, transmitiu uma inquietude de alguém que está começando a se aproximar de uma verdade que não pode ser tocada. Ela transmitiu isso logo, desde o início. E quando ela toma a palavra naquele monólogo, é maravilhoso ver como ela vai expressar isso de uma forma muito grande, chegando a fazer a gente pensar um pouco assim: o quanto Jocasta, na verdade, reage àquele pedido do Laios para que ela entregue o filho para ser morto. Ela reage a isso de uma maneira terrível, como se ela se vingasse de Laios, mantendo na relação incestuosa, uma vingança. “Você pede para que eu mande matar nosso filho, pois aguarde que ele vai ocupar o seu lugar.” Terrível isso tudo que logo começa a aparecer.

A pulsão de morte
Achei o texto do Quinet maravilhoso por esses poucos elementos que estou comentando e vários outros. Achei maravilhoso por ele explorar a densidade da peça, principalmente no ponto que agora eu gostaria de tocar: a questão da pulsão de morte. Há certa angulação que Quinet vai dar à tragédia, enfocando a pulsão sob a face da pulsão de morte, que está muito além da face com a qual normalmente a gente enxerga a tragédia, que é a face do incesto e da pulsão sexual. Para nós, psicanalistas lacanianos, a pulsão sexual está ancorada na pulsão de morte, mas, na maioria das vezes, a gente não vê a pulsão de morte. Ela fica no segundo plano, e fica tão ofuscada pela sexual, que é barulhenta, muito ruidosa, feérica que a gente não a vê. A pulsão de morte é a base de tudo. Parece interessante ver como esse desamor, esse ódio que fez com que Édipo fosse enviado para a morte, retornasse sob todos os personagens. A pulsão de morte, que ele carregou desde sempre, vai reincidir sobre todos os personagens principais, sobre a família e a geração que está por vir.

Me Funai – antes não ter nascido
Veio-me à mente um texto do Férenczi, que gosto muito chamado “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte”. Curiosamente, Quinet, eu nunca havia feito uma relação entre esse texto, que é uma obra prima de Férenczi e o Édipo. Hoje ficou claro de onde o Férenczi..., que não fala disso no texto, mas é evidente que o texto do Férenczi é sobre o Édipo. “A criança mal acolhida e sua pulsão de morte” significa que, quando uma criança vem ao mundo, ela não está atravessada pelo desejo de viver. Principalmente, ela deseja, na verdade, retornar, como Óidipous fala no final: “me funai”, antes eu não tivesse nascido, porque a morte é paz, é tranqüilidade, é sossego. A vida é que é turbulência, desassossego. O que faz com que uma criança, quando vem ao mundo, queira viver, deseje viver, não é algo que ela carrega nela, algo que vem do Outro. Esse Outro de que Lacan fala tanto, é o Outro do amor e do desejo, o Outro que vem da mãe, do pai, e, sobretudo que faz com que a criança muito rapidamente comece a ter desejo de viver, a encontrar na vida motivos para viver. Eu achei bárbaro como que a questão pulsão de morte adquiriu um plano muito importante no texto que Quinet transcriou com Sófocles, fazendo ver algo que geralmente não se vê.

Eros e Tânatos
Quinet: – A Coriféia diz logo depois do monólogo de Laios que “Será Óidipous capaz de ver o que das trevas a luz descobre, do parricídio ao filicídio, do incesto do filho, crime do pai?”. O filicídio está encoberto pelo parricídio e o crime do pai está encoberto pelo incesto com a mãe.
Marco Antonio: – É isso.
Quinet: – O “pelo avesso” – você pegou e tão bem comentou – é exatamente o filicídio e o crime do pai.
Marco Antônio: – Isso é muito interessante e faz a gente rever e repensar essa questão, porque, analiticamente, a questão do amor e do desejo do outro é fundamental, marca o sujeito desde sempre. Aliás, há outro momento forte em que Jocasta fala disso: a força do homem vem do amor, e sua potência vem da mãe.
[Interrupção feita pela atriz que interpreta Jocasta.]

Liliam Chalub – “Toda potência de um homem vem de sua mãe. É por ela o ter amado como o filho varão que ele crescerá forte, confiante, orgulhoso, com Eros em seu membro, em seu coração.”.

Marco Antônio: – Que deslumbrante! Maravilhoso! Eros é vida, Eros é sexo, sim. É vida, na dialética freudiana. No final sua própria vida, Freud trabalhava o tempo com essa dualidade vida e morte. Eros, o sexo, o sexual é o apego à vida, o apego aos objetos, mas que faz de alguma forma, um freio em relação à destruição: a autodestruição e a destruição do outro. Essa fala da Jocasta é maravilhosa. Vai exatamente dizer o quanto essa posição do Outro define o destino da criança. Maravilhoso! Fiquei muito contente, emocionado porque uma obra de arte é essencialmente uma coisa que toca a gente. A peça vai adquirindo uma densidade! A música, que gostei muito, cria todo o ambiente com alguns pequenos sons, uns barulhinhos que dão um clima que vai crescendo em densidade até o final, que toma uma força extraordinária!. A saída de cena do Édipo achei maravilhosa!. Ficam todos e ele sai de cena. De lá vem uma luz forte. Vocês repararam? Aqui escurece tudo. Ele cego está diante da luz muito forte - o que mostra a antítese que na peça de Édipo rei é jogo de ambigüidades, de oposições, que é explorada de uma maneira maravilhosa.


Responsáveis pela transcrição do debate:
Fernanda Guapyassú de A. Santiago – aluna UVA
Luis Manuel Gonçalves Braz – aluno UVA
Revisão : Ondina M.A.A. dos Santos – aluna UVA
Aline Drummond – Professora UVA

quinta-feira, 7 de maio de 2009

A ignoerrância e o Inconsciente

Gloria Sadala

participação no debate após a peça

29/03/2009

Gloria Sadala: – É um prazer muito grande estar aqui assistindo e participando dessa obra de Antonio Quinet e, mais ainda, porque a peça tem uma articulação com o nosso Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade, da Universidade Veiga de Almeida, como resultado da pesquisa Psicanálise e teatro. E é um prazer também estar com Marco Antonio, nosso colega e amigo. Marco Antonio e Antonio Quinet têm uma contribuição já inestimável para a psicanálise.

O Inconsciente é o destino

Hoje, estava preparando um trabalho e me deparei com um texto de Lacan, nos Escritos, “A Coisa freudiana”, que me lembrou a peça Óidipous, filho de Laios. Eu já assisti na estréia e assisti também em outros momentos anteriores. Anotei o trecho que me lembrou da peça, quando Lacan diz assim:

“Acreditas agir quando te agito ao sabor dos laços com que há, com teus desejos, assim, estes crescem como forças e se multiplicam em objetos que te reconduzem ao despedaçamento de tua infância dilacerada. Pois bem, é isso que será teu festim até o retorno do convidado de pedra que serei para ti, posto que me evocas.”

A peça fala, por um lado, desse convidado de pedra, do significante que determina um sujeito (a linguagem do Inconsciente que na peça é representada pelo oráculo) e que é a garantia da indestrutibilidade do Inconsciente. São as marcas para além da significação – elas representam a garantia de que uma carta chega sempre ao seu destino. Por outro lado, a peça do Quinet mostra também que há sempre uma margem de jogo, deixada pelo próprio significante, e que torna possível a psicanálise.

A "ignoerrância"

Para falar do eixo condutor da peça vou usar um termo do próprio Antonio Quinet que empregou numa Jornada nossa: a ignoerrância. Vejo várias palavras aí condensadas, mas vou ressaltar apenas duas: ignorância e errância. Errância é o não querer saber sobre o inconsciente. Errante, diríamos que é aquele que quer burlar a castração, e errância, é equivalente à paixão pela ignorância. Vocês devem ter observado que este termo aparece aqui no texto da peça em alguns momentos. Qual é o paradigma dessa ignorância? É o recalque.

A música e o não saber

Eu disse para o Quinet que hoje eu gostei mais ainda da peça. Pude, por alguma razão, apreciar mais a música. Deixei a música penetrar ainda mais em mim e isso se juntou a tudo que eu estava acompanhando. Algumas coisas se ressaltaram hoje para mim. Ficou mais evidente ainda essa ênfase do não saber. Estamos mais acostumados a ter uma leitura da peça Édipo Rei como um Édipo em busca de saber sobre a sua origem. O não querer saber fica bem evidenciado na peça pelo fato de Jocasta também estar do lado do não saber. Mesmo quando Édipo quer saber. Há dois tempos: um primeiro tempo na peça em que a ênfase é nesse Édipo que não quer saber. Mas depois, quando ele. tem algum contato com a sua verdade, ele não pode mais se desligar dela. É o segundo tempo, o de um Édipo que quer saber, que vai atrás desse saber, mesmo quando Jocasta tenta lhe convencer do contrário.

Tirésias e a verdade como mulher não-toda
Muito interessante também Tirésias estar representado na peça como mulher. Isso tinha me escapado das outras vezes que eu assisti à peça.. Pude pensar que Tirésias é um adivinho, um sábio, que ele é aquele que tem a verdade. Parece-me que essa ligação com a verdade levou Quinet a colocar Tirésias como mulher. Pois a verdade tem a marca de não-toda, tal como a mulher.

O grego
Achei muito interessante também, como já tinha percebido nas outras apresentações, essas palavras em grego enigmáticas e que nos causam questionamentos. A gente fica morrendo de curiosidade para saber o que querem dizer. Lembrei agora da cena da refeição totêmica em que todos falam: “Io Pã, Io Pã”. O que significa?

Quinet: – “Io” é uma saudação grega, igual a oi, e “Pã” é um divindade, o sátiro, que é é considerado o símbolo da sexualidade. É um animal silvestre metade homem e metade bode. Essa homenagem a “Pã”se dá naquele momento em que Óidipous indica que mais do que saber quem é seu pai e sua mãe ele é mesmo diz assim: “filho da sorte”, paida dês tycke. Aí, no coro, responde que é filho de Pã, e também de Dionísio, o que lhe confere uma genealogia divina nesse momento, que é o único momento alegre da peça.

Gloria Sadala:

A cena da refeição totêmica
Pois bem, a representação da refeição totêmica mostra, de forma bastante clara, a passagem do pai morto para a lei. Uma passagem muito bonita! (Trata-se da referência ao mito descrito por Freud em Totem e tabu em que os filhos matam o pai, em seguida o representam por um animal, como símbolo da lei, que é sacrificado e comido em ritual periódico).

O que fazer com as marcas recebidas?
Podemos entender Óidipous como um sujeito dividido entre histórias e tempos. Entre duas histórias: a de seus pais e a sua própria. E também entre dois tempos: o tempo até Corinto, antes do encontro com a verdade e, posteriormente, em Tebas. Óidipous somos todos nós, marcados pelo destino, marcados pelo grande Outro (O Inconsciente ou os deuses da Grécia antiga), como a peça mostra. Por mais que Óidipous tenha fugido do saber em um primeiro tempo, essa determinação inconsciente, representado pela maldição do oráculo, marca, o tempo todo, sua história. Todos nós também estamos marcados pelo grande Outro: estamos às voltas com o que fazer com as marcas que recebemos e identificamos no tempo de vida que temos pela frente ou no tempo de vida que nos resta.

A transcriação e a análise
Gostaria de tocar em mais um ponto: a transcriação. O programa da peça nos diz que a transcriação é uma tradução criativa com liberdade do autor, que a recria e transforma o texto original em uma obra sua. A análise é isso: uma transcriação, ou seja, um apropriar-se da sua história, das suas determinações inconscientes de modo a poder transformar alguma coisa delas na própria vida.

domingo, 26 de abril de 2009

Uma polêmica bárbara


Elisabete Thamer*

Tragédias sempre suscitam paixões. Este era e é, aliás, um de seus téloi ou mesmo sua essência. Oidipou, filho de Laios, de Antônio Quinet, se insere nesta mesma tradição, provocando paixões e polêmicas.

Segundo Aristóteles, o mito é o principio (arché) e como que a alma (hoion psyché) da tragédia (Poética, 1450a). O mito remonta à tradição oral, o que implica variações por vezes dispares de um mesmo tema. É o que ocorre, por exemplo, com o mito de Hércules – algumas versões contam que o herói cumpriu os doze trabalhos para expiar a culpa do assassinato de seus próprios filhos, outras sugerem que os doze trabalhos o antecederam.

O mito excede assim o que foi encenado nas tragédias gregas: os tragediógrafos compunham a partir de um elemento ou de uma das versões de um mito. O enigma proposto pela Esfinge a Édipo, história que mesmo nós, tupiniquins, “conhecemos”, não se encontra na Trilogia tebana de Sófocles, como por vezes imaginamos.

A transcriação da saga de Édipo realizada por Antônio Quinet ultrapassa o âmbito da encenação sofocleana e por isso trata-se, em meu entender, de uma trans-criação e não de simples transcrição. Quinet insere aspectos do mito edípico que, não estando presentes na Trilogia tebana, a completam e esclarecem. Oidipous filho de Laios é, sem dúvida, fruto de elaborada pesquisa, uma obra que poderia ser qualificada de mitopoiética.

É exatamente a literalidade da transcriação greco-brasileira (ou greco-xinguense) de Quinet, que me parece ter escapado ao espírito perscrutador de Bárbara Heliodora (cf. O Globo, 21/03/09). Sem dúvida, Oidipous filho de Laios solicita ouvidos mais helênicos do que “bárbaros” (def. “não gregos”; “que não falam grego”), ouvidos que se deixem invadir pelo equivoco homofônico, pela lalação da alíngua grega, a de Édipo.

Muito poderia se dizer ainda sobre a distinção, crucial, entre “predestinação”, “desastre” e o conceito grego de até, indistintos na crítica de Heliodora. Poderíamos debater também sobre o uso dos coturnos que, mais do que justa indumentária trágica, são mimesis excelsa dos pés inchados, oidipous...

Para nós, psicanalistas, além do thaumazein estético, a transcriação de Quinet abre uma via de reflexão fundamental sobre dois destinos da clínica analítica: enveredar pela via do deciframento, “historial” – o crime de Laios, decifra-me ou te devoro; ou a que conduz ao inconsciente-real, jogo de alíngua, “ahistórico”, indecifrável, letra de gozo, hors-chaîne: oidipous, dipous, tripous, tetrapous... Oidipous, filho de Laios encena essa dupla possibilidade de arrimo da análise. A segunda não vai sem a primeira, mas a primeira conduz à análise infinita. A primeira perpetuará a tragédia; a segunda a transformará, talvez, em comédia.

Tudo o mais é questão de gosto, eterna e catártica polêmica, entre as rãs de Aristófanes e os urubus de Zé Celso.

* Psicanalista, Doutora em filosofia (Université Paris IV-Sorbonne), Membro do Centre Léon Robin de Recherches sur la Pensée antique (CNRS- Paris IV- Sorbonne)

sábado, 4 de abril de 2009

Carta de Liana, uma atriz

Ao Sr Antonio Quinet

Desculpe-me invadir sua caixa de e-mail, assim dessa maneira. Mas nao pude deixar de escrever. Meu nome é Liana e já trabalhei (indiretamente) com o sr. na peça Artorquato. Eu era (ou melhor servia de) assistente de figurino da Luiza Marcier. Foi uma ótima experiência, para um atriz recém chegada ao Rio como eu.

Agora que moro aqui faz algum tempo, e ja me ambientei ao meio cultural não podia deixar de escrever sobre o e-mail que recebi que trata de uma resposta do sr. à critica Barbara Heliodora.

Embora ainda não tenha tido o prazer de assistir a sua peça (infelizmente), pelo pouco que conheço de sua trajetória acho deveras ingênuo crer que o sr. realizaria algo que passasse perto do superficial ou que deixasse a desejar nas pesquisas. Obviamente aqueles que entendem um pouco de psicanalise podem perceber ensinamentos profundos e pequenas sutilezas em seus trabalhos. E para aqueles que ainda não aprenderam a pensar acho um bom momento para começar.Achei a franqueza, a honestidade, e diga-se de passagem, a delicadeza de sua contra-resposta perfeitas. Se faz necessário que alguém do seu gabarito intelectual reinvidique o direito de resposta (porque nós pobres mortais - atores quase sempre rechaçados por ela, e pela crítica em geral, e que não temos titulos de intelectuais não podemos reclamar). Não é preciso valorizar sua arte porque, talvez você saiba disso melhor do que eu, o que vale para o criador, de verdade, é o "encontro do espectador com a obra" (lembrando Jayme Monjardim) e nisso se cumpre seu processo de trabalho, e tenho certeza que com louvor. Parabéns e obrigada em nome de todos nós atores.
Liana Castello

sexta-feira, 3 de abril de 2009

resposta a Bárbara Heliodora

Édipo antropofagizado

Ousei sim

Sim, como Bárbara Heliodora me acusou, eu ousei tocar na peça de Sófocles, Édipo Rei e foi, como ela mencionou, como professor e psicanalista (cf. O Globo, 21/3/2009). Sim, mas com o propósito de encenar minha terceira peça de teatro desta vez com a Cia. Inconsciente em Cena que traz ao palco a pesquisa cênica inspirada em Freud e Lacan. Daí a escolha da peça fundadora da dramaturgia e da psicanálise transcriada à luz das contribuições contemporâneas.
É crime?
Será um crime (de lesa-majestade), um psicanalista fazer teatro e por isso ser publicamente desrespeitado? Se esse “crime” parece novidade para alguns, não é o caso, por exemplo, nem na Argentina, com Eduardo Pavlovsky, nem na França com Alain Didier-Weill, Jean Gillibert e François Regnault, este último professor da Universidade de Paris 8. E tampouco em São Paulo, como o testemunham Betty Milan e Contardo Caligaris. Afinal de contas, a psicanálise sempre esteve ao lado da arte desde Freud, que encontrou nas obras de arte de Sófocles, Shakespeare, Goethe, Leonardo da Vinci, etc, as mesmas manifestações do inconsciente que ouvia de seus pacientes e que o fizeram inventar a psicanálise.
O Inconsciente na arte e no divã
Nada de espantar, pois ambas são feitas do mesmo material: as tragédias familiares, os conflitos intra e intersubjetivos, os sonhos, as paixões como o amor, o ódio e a ignorância, encontros e desencontros, e todos os tipos de atos falhos e bem sucedidos.Não esperava, como fez a crítica do O Globo, colocar-me na série daqueles que “se arriscaram a tratar do tema” como Sêneca, Jean Cocteau e Pasolini entre outros.
Faltou o pequeno "a"
Tampouco fiz uma "transcrição" como ela diz e não compreendeu; e sim uma transcriação como está escrito em toda a divulgação. Porém o pequeno a escapou à leitura talvez apressada da especialista em Shakespeare. Os analistas perceberão o "ato falho" – faltou o objeto, dito pequeno a, de Lacan, que designa a posição do sujeito com o objeto de desejo ou repúdio, e que norteia a releitura da peça (vide programa). "Transcriação" é um termo de Haroldo de Campos para designar a tradução criativa, com todas as licenças poéticas e interpretantes, cujo texto o autor pode reivindicar como original e própria.
O Inconsciente é o infantil do adulto
O texto de Óidipous, filhos de Laios respeitou a estrutura do texto de Sófocles com interpolações de cenas e interpretações a partir dos comentários de Freud, Nietzsche, Hölderlin, Vernant, Lacoue-Labarthe e Lacan. Mantive a proposta de Sófocles de colocar nos protagonistas uma linguagem coloquial e no coro uma linguagem metafórica. Se para Barbara Heliodora o resultado é uma encenação que se dirige a um público infantil, prefiro pensar que não se trata de uma desqualificação da psicanálise e do público a que ela se dirige e sim daquilo que se sabe há mais de um século: o Inconsciente é o infantil de todo adulto. Ou talvez ela partilhe da opinião comum de que a Antiguidade grega é a infância da humanidade.
A tradução resgata o que foi dito
Para resgatar o poder de comunicação da peça, substituí alguns deuses gregos e suas histórias, desconhecidos do público, por seus atributos e representações, tal como Hölderlin traduz Zeus por o Pai do tempo, simplesmente por que Zeus não significa mais nada para nós. Afinal, como diz Françoise Dastur, “a tradução consiste em reescrever o texto, a fim de fazer aparecer o que realmente foi dito”.
Eu, você e ela: os Édipos
Óidipous, filho de Laios não é uma peça metalingüística sobre Édipo Rei de Sófocles, ou uma desconstrução (como o estupendo, e também desqualificado por Bárbara Heliodora, Ensaio Hamlet pela Cia. dos atores) e sim, como já dissemos, uma transcriação que estabelece um diálogo com o tragediógrafo grego e coloca em cena a essência do que a peça transmite – a relação entre o saber e a verdade – numa releitura contemporânea e brasileira. O resultado se encontra do lado de um público de variado grau de instrução que acompanha emocionado o desvendamento da verdade e sua negação por parte de Édipo, produzindo o efeito trágico, descrito desde Aristóteles, em que através do reconhecimento dos desastres da vida, e da catarse propiciada pela encenação (texto, música, espetáculo, atuação), o espectador sai do teatro tocado e revigorado. Afinal, Édipo sou eu, você e ela também.
O que se herda
Nossa releitura reintroduziu o tema da maldição (presente em Ésquilo) que Édipo, sem saber, herda do pai e influencia todos seus atos – o que não retira sua responsabilidade. Não se trata de "predestinação”, como propõe B.H., que é um termo vago e ultrapassado, e sim da herança simbólica e inconsciente que todos recebemos como seres humanos tecidos pelas histórias e desejos paternos e maternos.
Óidipous e a Esfinge
Oidipous, filho de Laios retoma os nomes dos personagens em grego não por um "anseio de originalidade" do autor, e sim pelo fato de a peça centrar-se na equivocidade significante em grego entre o enigma da Esfinge (dipous, tripous, tetrapous – dois, três e quatro pés) e o nome de Édipo (Oidipous = pé inchado, saber no pé).
Iokaste não sabia??????????
Quanto à Iokaste (desculpe, Jocasta) é surpreendente que ela afirme que em Sófocles ela quer “só buscar salvá-lo do sofrimento” ao vê-lo aproximar-se da verdade. Isso é retirar toda a complexidade do personagem dessa mãe que manda matar o filho ao nascer e, mais tarde, casa-se com ele e lhe dá quatro filhos malditos que também terão um fim trágico. Toda reflexão mais aprofundada sobre "Édipo Rei" deixa claro que era impossível Jocasta não saber que seu marido era o filho que sobrevivera a sua tentativa de filicídio.
A deglutição de Sófocles
Quanto à encenação, a referência aos índios brasileiros não é casual e sim explícita. Ela está presente na composição musical que utiliza elementos gregos e indígenas, nas máscaras dos índios do Xingu, nos bambus utilizados no coro como nas danças dos índios, etc. Trata-se de aproximar daqui e de hoje essa peça grega de 2.500 anos mostrando que o homem é o mesmo e, assim, apontar nossa origem grego-indígena – eis o que nossa "antropofagização" de Sófocles , como diria Zé Celso, produziu.
O estranho do Inconsciente trágico
O mito originário de Édipo é, como o Inconsciente, transcultural e estrutural. Daí o emprego dos coturnos, que os atores gregos utilizavam, para Oidipous e Iokaste (que os retiram ao fazer amor), como, as saias (da cultura oriental) para os personagens: vermelho para os reis e preto para o coro. O trono, constituído por um caixote com bambus, além das folhas secas são os únicos elementos cenográficos num palco vazio – como nos teatros gregos e tabas indígenas – enquadrado pelos músicos distribuídos em quatro cantos. Todos esses signos cênicos simples estão lá para serem lidos juntos à excelente direção de movimento de Regina Miranda que confere ao coro sua dignidade trágica. Se tudo isso pareceu “estranho” a B.H. parece que nossa peça alcançou seu objetivo ao trazer à cena o familiar enquanto estranho, que é justamente a característica, como mostra Freud, dos conteúdos do Inconsciente que nos são estranhos e, no entanto, familiares. Estamos assim também fiéis aos gregos cuja característica, como diz Hölderlin, é “o modo de assimilar naturezas estranhas e nelas compartilhar a si mesmo” (carta a Böhlendorff de 2/121802).

terça-feira, 31 de março de 2009

A verdade cega

Eis o texto que saiu hoje no site A voz do cidadão, que pauta a CBN, publicou hoje esta crítica da peça escrita pelo Jornalista Jorge Maranhão


A superação do espaço cênico com múltiplas linguagens artísticas

Óidipous, filho de Laios - A história de Édipo Rei pelo avesso, de Antonio Quinet


A verdade às vezes cega porque ofusca. E a chamada crítica teatral da grande mídia não tem aberto bem os olhos para uma dramaturgia que tenta superar o espaço cênico com múltiplas linguagens artísticas e com um texto, por exemplo, transcriado da clássica peça de Sófocles, como afirma o próprio autor Antonio Quinet. Como o próprio oráculo Tirésias, cego e, por isso mesmo, portador da verdade, da decifração dos enigmas. Pois neste caso é vantagem combinar o olhar do psicanalista com as mãos do diretor de cena teatral, como é o caso de Quinet. Por que ele sabe que Tirésias é cego para melhor “ver” a verdade na sua dimensão essencialmente ideal, como de sorte, todo o pensamento idealista-platônico daquela época. No seu louco afã de se limitar ao texto antigo, muita vez a crítica é míope, conservadora e intolerante para fruir a abertura e polissemia de verdadeira obra-de-arte. Como diz o autor na apresentação de seu trabalho, se trata de revirar o mito de Óidipous pelo avesso pois o texto de Sófocles e suas interpretações e encenações se limitam ao parricídio e o incesto quando, pelo avesso, está na verdade o filicídio de Laios contra Óidipous. Como na diferença que marca o De’s misericordioso de Israel que segura a mão de Jacó no momento em que este tenta sacrificar Isac e o Deus cristão que não ouve a súplica de Cristo na cruz quando lhe pergunta por que o abandonou. A maldição para tamanha transgressão será a peste de todo um povo no vaticínio de Pélops a Laios que teria raptado seu filho Crísipo: - terás um filho que te matará. E Óidipous herdará a mesma maldição da esfinge: - farás sexo com tua mãe e matarás teu pai! Ou seja, o parricídio de Óidipous está justificado pela tentativa de filicídio de Laios. E a maldição se perpetua. Mas Óidipous sobrevive ao filicídio de Laios, ao seu triplo equívoco de nascer amaldiçoado, ao de matar o pai e se casar com a mãe, gerado e gerador, saindo e entrando pelos mesmos quadris de Iokaste. O preço é não querer saber e se cegar, pela inevitável herança da maldição lançada contra o pai. Mas para além da ação dramática e dos conceitos psicanalíticos, o que chama a atenção e está na origem da polêmica crítica, é a transgressão do autor ao próprio universo sagrado do teatro grego. Quinet se apropria dos textos de Sófocles e Ésquilo para recriar, ou transcriar, o drama de uma pulsão de morte, da relação de Óidipous com Laios. E mais transgride quando aproxima o universo da cultura grega com o universo da cultura Xingu. E aí a minha grata surpresa: o que pensava ser apenas uma citação de nossas origens, é mais do que isso, uma aproximação antropofágica de ambas as mitologias, onde a indígena digere a européia para a produção de uma terceira cultura. Como definiu o próprio autor: - em ambas a lei da hospitalidade é sagrada, ambos os povos da Grécia e do Xingu são panteístas e andam nus, para além do significado de Óidipous, como pés inchados, tal qual o Abaporu de Tarsila do Amaral, que marca a passagem de nosso modernismo e foi a própria inspiração de Oswald de Andrade para o manifesto antropofágico, onde deciframos nossas origens tanto gregas quanto indígenas. Resta saber se a crítica enxergou a essência do trabalho de Quinet: a necessária afirmação e transgressão de nosso olhar nacional e singular diante da farta mesa da mitologia grega. Ou será que não podemos mesmo participar do banquete mitológico universal? Confira você mesmo! http://oidipousfilhodelaios.blogspot.com/ http://www.youtube.com/watch?v=M1PXrzr95OU

31/3/2009

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"Óidipous, filho de Laios", de Antonio Quinet, e a transgressão de nosso olhar nacional e singular diante da farta mesa da mitologia grega

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