sexta-feira, 20 de março de 2009

Óidipous, a permanência do Inconsciente

Sobre a crítica de Macksen Luiz
em O Jornal do Brasil de 19/03/09

Em sua crítica de ontem da peça, Macksen demonstra que nossa peça apresenta o essencial do que queremos transmitir.

Ele escreve: "Óidipous, filho de Laios, em cartaz no Mezzanino do Espaço SESC, adaptação de Antonio Quinet para a tragédia Édipo rei de Sófocles, se submete às perigosas implicações comuns a qualquer transposição que intente o avesso do original." Constata, portanto, que a história que a peça conta é a história de Édipo rei pelo avesso, ou seja, através do filicídio e do relato do pai morto, Laios, cujo monólogo inicia a peça. Laios no reino do Hades, no meio de espectros que se movem como vermes nús, conta sua história e a de seu filho. Eis a ante-cena que interpolamos ao texto de Sófocles.

Saber e arte
Macksen chama a atenção de como a peça é fruto de intensa pesquisa, ou seja, que não é mais uma mera adaptação, mas que tem um embasamento teórico multidisciplinar. "Ao sobrepor interpretações culturais, filosóficas e psicanalíticas ao desvendamento da verdade, esta encenação de Édipo retrata os atos interditos do personagem e o caráter trágico do conhecimento como pontos de reflexão." Ficamos felizes de constatar que a peça está transmitindo a articulação entre os atos do parricídio e do incesto efetuados por Édipo e sua paixão da ignorância que o dificulta em seu caminho de desvendamento da verdade (que seu pai quis matá-lo e que seus atos estão vinculados à maldição que seu pai recebera).E chama a atenção do leitor para a articulação entre a pesquisa acadêmica e a arte tanto no texo quanto na encenação: "A transcriação do texto e a direção de Quinet deixam evidente que a cena foi construída a partir de análises teóricas e projeções interculturais que traduzissem, com recursos teatrais, a proposta de investigação".

Inconsciente permanente e fundador

O mais interessante para nossa Cia. é ter alcançado o objetivo de colocar o Inconsciente em cena (nome de nossa Cia.). Diz o conceituado crítico, com sua fineza concisa: "O espetáculo busca na ritualização - em que civilizações como a grega e a indígena se encontram, ou tentam se encontrar, num espaço psicanalítico - a integração das linguagens. A idéia de fundação e de permanência do inconsciente se transporta por épocas e culturas, dimensionadas em signos que perpassam cada uma delas". O transculturalismo e transhistoricidade do Inconsciente é aqui captado por Macksen apontando para a universalidade de Édipo não só como desejo inconsciente mas como objeto do Outro no Inconscinete, que é o foco de nossa adaptação. De objeto admirado e amado ele passa a odiado e expulso, como fôra quando nasceu. A utilização na montagem de elementos indígenas (máscaras, maquiagem, instrumentos musicais dos índios do Xingu), gregos (textos no original e fragmentos musicais) e orientais (peças de figurino e sinos tibetanos), música tocada em alaúde barroco, vídeo contemporâneo são alguns dos signos mencionados por ele, o que aliás são retomados adiante em sua crítica.

A tragicidade em cena
Macksen nomeia esses signos: "Os sons, as máscaras, as vestes, a maquiagem, todos os elementos se combinam para criar esse multiculturalismo cênico, e alcançar conceitos como essência, tragicidade, paradigma". Eis alcançado nosso objetivo: levar os conceitos à expressão artística e mostrar no palco o Inconsciente trágico com seus desejos criminosos, com seus paradoxos, com todas as maldições herdadas, com a desmedida do gozo que nos impulsiona a realizar o impossível e as consequências dos atos impensados. Tudo isso o sujeito sabe sem saber - eis a tragicidade do conhecimento. É a essência do homem que esta tragédia traz aos palcos com toda sua complexidade. "Sou triplo equívoco, diz Óidipous, ao nascer, ao casar a ao matar". Esses equívocos não são só deles, podem ser de todos. O Coro, no Estásimo IV, diz 'Óidipous, és paradigma da condição humana".

Obrigado, Macksen Luiz.

Antonio Quinet
Cia. Inconsciente em Cena

Um comentário:

  1. Da cegueira branca que encobre o Real à verdade vermelha que pulsa e escorre pelos olhos: Para mim, esta é a Lysis que o herói Oidipous realiza em relação ao seu Destino oniricamente apresentado pelas imagens do teatro de Quinet.
    Parabéns novamente!

    ...Marcus Quintaes...

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